DISPARIDADE DE PODER E ABUSO SOCIAL

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Em quase todos os dias deste mês de novembro, eu me empenhei com a produção final de tudo o que se referia ao lançamento de Doce complicação, o romance mais novo que entreguei ao público-leitor, dias 16 e 18 últimos, aqui em Brasília, ocasião em que também celebrei o “Margarida Drumond: 40 anos escrevendo pra você”. Além da própria edição do livro, minha atenção voltava-se também para o espetáculo teatral, com música e dança, tudo me absorvendo intensamente.  Embora o sufoco, mantinha-me ligada aos fatos de nosso país, em especial ao que prosseguia no cenário político: esse caos que vem há muito tempo,  numa toada vergonhosa, com privilégios dos poderosos, à revelia do que padece a classe operária, no árduo trabalho diário, buscando cumprir, ou pelo menos tentando,  com suas responsabilidades. E daqui mesmo da capital da República, eclodiu um dos piores sinais do descaso por que passa a população: uma criança desmaiou de fome em plena sala de aula.

Entrementes, a vida política nacional seguiu seu rumo, deixando muito a desejar, principalmente nas áreas da Segurança, Educação e  Saúde,  com predomínio de escândalos entre os poderosos. Felizmente, temos visto algumas ações para conter a corrupção, a exemplo das prisões de políticos supostamente considerados como importantes lideranças no Rio de Janeiro, dentre elas as de Anthony Garotinho e  Rosinha Matheus, dia 22, que foram se juntar ao ex-governador do Rio, Sergio Cabral, num mesmo presídio, acusados, entre outros crimes, de corrupção e organização criminosa. E estranho é que até lá, na Cadeia Pública José Frederico Marques em Benfica, onde estão, dão trabalho: Garotinho teve de ficar em local separado, para que se evitassem situações indesejáveis, uma vez que é tido como inimigo dos demais que para o mesmo local foram levados. Importante lembrar que, dentre os governantes daquele estado, ainda permanecem livres Luiz Fernando Pezão e Moreira Franco, estando os dois sob investigações nas operações Lava Jato.
Com as freqüentes prisões que temos visto, vem-nos a esperança de que elas contribuam  para a diminuição da nefasta degradação na ética e o desrespeito às pessoas por parte de pseudos representantes do povo. É inconcebível o pensamento de que governantes ajam inescrupulosamente, tendo acesso indevido a contratos de ordem pública, surrupiando o dinheiro do povo, como se tudo lhes fosse de direito.

Enquanto isso, do lado de cá temos o presidente Temer, sempre buscando ultimar negociações para novamente obter votos favoráveis às reformas que quer fazer em importantes pontos de documentos máximos da vida do país. A respeito, contatos ele vem tentando costurar para obter apoio de prefeitos municipais. Fato é que nessas manobras, por exemplo, escolheu para o Ministério das  Cidades, o deputado federal, Alexandre Baldy, que é ligado ao presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia.  Apesar de tudo, conforme assegurou Maia, não será fácil o Governo atingir os 308 votos para apoiar a reforma da Previdência, e ela  provavelmente ficará para 2018.

Se para o governo o que importa é conseguir aliados para continuar com seus projetos, nós outros sofremos com a falta de segurança pública; com a saúde debilitada, faltando medicações até mesmo para pacientes com doenças crônicas; e os assaltos num crescendo, com as pessoas presas em suas casas, temendo as ruas. E isto tem razão de ser: recentemente foi divulgado o absurdo número de 61 mil homicídios  em apenas um ano.

A despeito de todo o sofrimento da população vítima de mazelas sociais diversas, o governo prossegue falho em múltiplas questões: mantém-se o status quo da insegurança. Melhor seria se pensassem em medidas como a criação de escolas perto das casas das crianças, evitando desgaste físico das mesmas, tirando suas condições de aprendizado. Como no caso ocorrido no Distrito Federal, em escola da rede pública no Cruzeiro, o menino de oito anos, como dezenas e dezenas de outras crianças, sai de sua casa no Paranoá Parque, no Paranoá, às 11 horas  e só alcança a escola duas horas depois. Pensa você que ao chegar, ele se alimenta? Não, isso só às 15h30, e olhe que no fatídico dia em que desmaiou de fome, no lanche só havia biscoito de água e sal, e, para tomar, só água.  Incoerentemente, ao mesmo tempo, aqui mesmo na Capital, autoridades recebem exorbitantes salários e ainda usufruem de mordomias diversas, indiferentes a situações tais que, sem dúvida, se repetem em vários pontos do Brasil.

O cenário exige mudanças rápidas: é triste que se observem benesses aos poderosos, com excessivas mordomias, carros e motorista particular, fartas e múltiplas refeições, estudos em escolas particulares, sem que a maioria tenha o mínimo com que se alimentar e a escola nem uma refeição ofereça aos seus alunos, levando-os ao desmaio por fome. A continuar assim, o próximo ato pode ser ainda pior.

Brasília/DF, 25 nov. 2017

Margarida Drumond é professora, escritora e jornalista. Doce complicação é sua 17ª obra editada e já duas biografias vêm sendo planejadas para 2018.

Contatos: [email protected] Tel. (61) 99252-5916 www.margaridadrumond.com  

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