“A PAZ É MULHER”

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O Dia Internacional da Mulher, celebrado a 8 de março, foi alvo de atenção em locais diversos no mundo, originando manifestações por mais respeito e igualdade de direitos e salários, notadamente em regiões centrais do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, relembrando as lutas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Muito forte foi o protesto contra o feminicídio e outras violências contra a mulher, e um grito se viu contra a reforma da Previdência. A data mereceu também o carinho do Papa Francisco, destacando características próprias da mulher.

Este evento nos leva a remotos registros revolucionários da classe trabalhadora, conforme propusera em 1910 a alemã Clara Zetkin, do Partido Comunista Alemão e militante operária das causas das trabalhadoras, quando do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas. Para Zetkin, não que fosse exatamente  no dia 8 de março, mas em uma data específica do ano, como ocasião de as mulheres de todo o mundo se mobilizarem. Naquele tempo, muito se questionava a presença da mulher no trabalho e o seu direto ao voto, e, hoje, enquanto em alguns países, o clamor é mais por igualdade de direitos e salários, aqui o protesto é maior pelo absurdo crescimento da violência contra a mulher. Com uma sociedade machista e deseducada, o próprio direito à vida tem sido violado,  e a mulher brutalmente atingida, seja em que faixa etária estiver ou classe social ou raça pertencer. E, por exemplo, conforme Sônia Coelho, da Marcha Mundial das Mulheres, luta-se contra a reforma da Previdência, porque nela não se reconhece a desigualdade entre homens e mulheres.

Voz atenta aos fatos do mundo, na pessoa do pontífice o papa Francisco, a Igreja se manifestou, ontem, no Vaticano, quando do encontro com a Delegação do Comitê Judaico Americano. Ele ressaltou a contribuição insubstituível da mulher para a construção de um mundo que seja a casa de todos. “A mulher torna o mundo mais bonito, o protege e o mantém vivo; a sua graça torna as coisas novas; seu abraço abrange a coragem de se doar”, disse Francisco. E frisou que “a paz é mulher, nasce e renasce da ternura das mães. (…). Ela leva ao mundo o sonho do amor”.        Mas, como fazer ver à grande maioria dos homens brasileiros que a mulher é paz? Eles desrespeitam as companheiras, namoradas ou cônjuges. Há homens bons e que estão na luta pela valorização da mulher, procurando apoiá-las dando mais voz e permitindo-lhes o empoderamento, e muito está por fazer. O Brasil figura como o 5º país do mundo no ranking de Feminicídio, conforme destacou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos – ACNUDH. Só perdemos para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia no quesito a essa morte brutal de mulheres. Aqui, são assassinadas “48 vezes mais mulheres que no Reino Unido, 24 vezes mais que na Dinamarca e 16 vezes mais que no Japão ou Escócia”, apontaram. Cumpre lembrar que o feminicídio é o assassinato de mulheres e meninas, simplesmente por questões de gênero, quer dizer, são menosprezadas e discriminadas pela condição feminina. Embora a falta de padronização e de um maior monitoramento sobre os crimes contra mulheres no país, levantamentos por órgãos competentes apontam que em 2017, foram 4.473 homicídios dolosos; 946 destes, feminicídios, o que mostra um aumento de 6,5% se comparado ao ano anterior.; aqui mesmo, no Distrito Federal, cresceu a violência contra a mulher. Registrou a  Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social – SSSP/DF (Correio Braziliense, 13.01.2019), que entre  janeiro e novembro de 2018, os casos de feminicídio subiram 50% em relação a 2017: de 18 para 27 casos. E se registrou também a violação da Lei Maria da Penha, aumento de 2,3%: de 13.426 mil casos, em 2017, para  13.747 mil em 2018.  Que motivações estariam por trás de tanta barbárie?, perguntamo-nos, pasmos. Mas é só observarmos a forma como acontecem os crimes e o que dizem os acusados, quando presos, para percebermos que a cultura de que a mulher é um ser menor sobressai. Há um sentimento de posse sobre a mulher, um controle sobre o seu corpo, ações diversas impedindo que ela cresça social e intelectualmente, tudo resultando em ódio e morte.

Mediante tudo isso e no ensejo do 8 de março, se percebe que não podemos nos calar. Exijamos aplicação das leis, como a do Feminicídio,  Lei n. 13.104/2015; também a anterior, conhecida como Lei Maria da Penha, Lei n. 11.340/2006.  Basta de crimes: é Mariele Franco, morta já faz um ano, e os culpados não foram presos; são as violências sexuais, como as praticadas pelo médium João de Deus, em Abadiânia, preso pela prática de violação sexual, inclusive por estupro de vulnerável (sexo com menores de 14 anos), conforme registrado pelo Ministério Público de Goiás no Fórum daquela cidade; é o feminicídio como o do dia 28 de janeiro último, na 316 Norte, centro da Capital federal, quando o marido matou a esposa após um abusivo relacionamento de 50 anos. Muitas vezes falta coragem para denunciar as agressões; e, no caso de violência às crianças, ocorre de serem desacreditadas quando corajosamente tentam se manifestar. E o sofrimento continua, em grande parte dentro de casa, local no qual  deveriam se sentir seguras. O Brasil deve estar atento às iniciativas propostas pelo Ministro da Justiça, Sérgio Moro, e pela Ministra da Mulher, da família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Dados do IBGE informam que só 7,9% dos municípios brasileiros têm delegacias especializadas para atender mulheres. A insatisfação pela violação de direitos tem que ser escutada, e a mulher mais respeitada, amada, ter mais voz, pois, afinal, “a paz é mulher” e dela  nasce a vida.

Brasília, 9 de março de 2019.

Margarida Drumond de Assis é professora, escritora e jornalista, autora de Não dá pra esquecer, com 100 crônicas sobre fatos e pessoas que marcaram os últimos 30 anos do século XX; e de Dom Lara: vida de amor, testemunho de caridade. É presidente coordenadora da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB, Coordenadoria Distrito Federal.

Tel.: (61) 98607-7680 [email protected]  www.margaridadrumond.com.

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