AFOGAMENTO DE UM ANJO

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A imensidão talássica esconde belezas e mistérios em profundezas abissais. Esconde também o corpinho de Geanderson, de nove anos, que saiu sorrateiro de casa para uma traquinagem fatal: um banho de mar, às escondidas da mãe, com o amigo Dhanyel. Oceano atraente e traiçoeiro: beleza que atrai e trai, morada de Eros (fonte de vida e prazer), e de Thanatos, (fonte de morte e luto). Isso remete, na perspectiva psicanalítica, aos dois aspectos da “grande Mãe”, que dá e tira, concede e castiga.

A recorrente assertiva “uma imagem vale mais que mil palavras” veio-me à mente quando observei a foto estampada no jornal A Gazeta, do dia 12-12-2018. Impossível definir o sentimento expresso pela bela e trágica imagem. O desalento de uma mãe, à beira-mar, recostada a uma grande pedra, como se nela encontrasse algum apoio,  varrendo com o olhar a superfície marítima, até à mescla com o azul-celeste,  no afã de avistar os cabelinhos louros do filho desaparecido. Lembrei-me que, ironicamente, Eros, o deus grego, é normalmente retratado como um menino de cabelos louros.

Tentei, em vão, encontrar a palavra certa, um termo que traduzisse essa imagem: desolação, desacorçoo, tristura, desesperança, desencanto, desengano, desventura, infortúnio, tormento… tudo isso misturado e amalgamado à aflição de um temido desfecho que teimava em não acontecer.

A ansiedade da mãe oscilava entre o aparecimento e o perecimento do caçulinha, seu anjinho barroco. Almejava a primeira opção, rejeitava a segunda. Ansiava por um provável resgate, por parte dos pescadores, e pelo caloroso abraço, ao tê-lo de volta são e salvo.

Provavelmente está em algum hospital – pensava. Uma boa alma deve estar cuidando dele. Em breve, aparecerá porta adentro gritando: Mamãe! Mamãe! Cheguei! Entrará correndo, de braços abertos, enlaçará minha cintura com as perninhas, meu pescoço com os bracinhos, como de costume, e me cobrirá de beijos. Será meu maior presente de Natal. Deus não vai me fazer uma desfeita. Sempre fui tão fiel a Ele! Nunca dormi sem rezar, nunca faltei missa aos domingos, sempre respeitei os mandamentos, sempre dei duro, criei meus filhos catando papelão na rua e fazendo faxinas, sem nunca ter cobiçado coisas alheias… decididamente, não mereço uma coisa dessas!

Rosilene passava o dia todo à beira-mar, abatida pela agonia da espera, enquanto os bombeiros continuavam as buscas. Abordada pelos repórteres, declarou: “Fico olhando para ver se aparece o cabelo loirinho dele na água. Peço a Deus para encontrar o corpinho dele. Preciso enterrar meu filho […] quando nasceu tinha o cabelo loiro e enrolado. Parecia um anjinho. Um anjo que Deus me deu.”

No dia 8, na Barra do Jucu, Vila Velha (ES), um banhista filmou casualmente as últimas brincadeiras das duas crianças, que tentavam furar as ondas, cada vez mais ameaçadoras, sob um céu escuro, também ameaçador. O corpo de Dhanyel foi encontrado dois dias depois. O de Geanderson ainda não deu o ar da graça, apesar das constantes buscas por meio de barcos e helicópteros. Não se sabe até quando durará a agonia da mãe, que aguarda, há mais de uma semana, a resposta à pergunta que não se cala. Por onde anda meu menino? Como está ele? Vivo ou morto?

Essa incerteza está em sintonia com o simbolismo das águas em movimento: ambivalência, dúvida, vida/morte. A transitoriedade e a inconsistência das ondas têm como contraponto a dureza e a imutabilidade da rocha na qual Rosilene se apoia. De acordo com a simbologia bíblica, o rochedo (ou pedra) representa a força protetora de Deus. Essa pretensa força é a “taboa de salvação” à qual ela se agarra enquanto durar a interrogação, à espera do ponto final.

Jô Drumond

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