BRUMADINHO, A TRAGÉDIA: OBSERVAR, FISCALIZAR E DENUNCIAR

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            Estamos em um Brasil que acredita viver expectativas de novo momento: esperam-se  melhorias nos vários segmentos sociais, como na saúde e na educação, todos querem um país onde se possa viver em paz e com segurança. Muito se espera do presidente Jair Bolsonaro e de sua equipe, em grande número da área militar, e uma das crenças é a de que Sérgio Moro, sendo Ministro da Justiça e Segurança Pública, notadamente com o seu projeto anticrime, consiga transformar a situação, com ações mais incisivas e que as leis sejam de fato aplicadas. Deu-se a posse do Presidente e daqueles que estarão trabalhando próximos a ele; contudo, de súbito, a atenção quase que se voltou totalmente para a catástrofe que abalou o país e mesmo pessoas de fora: a tragédia em Brumadinho, Minas Gerais, quando do rompimento da barragem de rejeitos de minério da Vale, na Mina do Córrego do Feijão, do que hoje resultam  150 mortos e 182 pessoas consideradas desaparecidas, além de um imenso dano ambiental com animais extintos, água contaminada, populações em situação de emergência e risco, sem casa, sem onde trabalhar. As pessoas ainda estão perplexas por tudo o que viram, viveram a ainda sofrem em consequência do pavoroso desmoronamento da barragem, ocorrido às 12h28 do dia 25 último.

Os desdobramentos da tragédia nos levam a refletir não apenas sobre o que realmente importaria, a vida, mas também, e muito especialmente, sobre as ações das empresas e de seus responsáveis; as iniciativas das autoridades governamentais que não observam a fiscalização devida; e tantas outras mazelas oriundas de práticas inaceitáveis na administração pública. Por outro lado, o desenrolar dos fatos mostram também quanto o povo brasileiro é forte e solidário. Muitas reportagens apontam a coragem e a disponibilidade dos que deixaram sua família e se entregaram ao trabalho para ajudar às pessoas atingidas pela tragédia. O trabalho do voluntariado tem se mostrado valioso, isto é inquestionável. Mas o que dizer dos bombeiros que continuam em seu trabalho sem medir esforços, eles que, desde o início, lutam à procura de pessoas com vida e dos corpos daqueles tantos que não conseguiram escapar. Como foram fortes as cenas com eles se arrastando na lama; a coragem nos salvamentos, mesmo em detrimento da própria vida; impressionante também a bravura e inteligência da piloto de helicóptero, Major CB/MG Karla Lessa, quando do regate naqueles primeiros momentos da tragédia; e outros tantos exemplos que têm nos tocado.

O porquê de a encosta de 87 metros de altura que sustentava os 11,7 milhões de toneladas de rejeitos de minério de ferro ceder, sem nem mesmo haver soado uma sirene, foi logo motivo de investigação. Fato é que a barragem desmoronou, transformando-se em uma onda escura que seguiu arrastando o que estava no caminho. E me vem à memória a cena de um carro em zigue-zague, com alguém querendo escapar, mas sem saber aonde ir: o perigo o circundava. “(…) O que mais me entristeceu foi quando o helicóptero subiu (depois do resgate) e lá do alto avistei o refeitório de onde eu tinha acabado de sair. Depois, vi a área administrativa, as oficinas mecânicas, unidades de saúde. Tudo tinha ido embora. Meus amigos. É muito devastador”, contou Sebastião Gomes, de 54 anos; como ele, os dois companheiros na ocasião também resgatados, Leandro Borges, 37, e Elias de Jesus Nunes, 43. E, nestas recordações ao ver o vídeo que veio a público uma semana após a catástrofe, Sebastião revelou sua gratidão ao Elias que gritava para que ele entrasse na caminhonete em que escaparam, mesmo após a insane luta buscando uma saída, pois o cerco se fechara de todos os lados.

  Mas, e então, o que nos resta hoje após o registro de alguns daqueles fatos? Sabe-se que havia falhas no sistema de drenagem da barragem, embora a mineradora responsável, a Vale, tenha afirmado haver seguido as recomendações dadas por especialistas, após examiná-la. O que ela fez não resolveu, disseram os peritos, ao contrário, piorou; e hoje se noticiou que a partir de mensagens apreendidas pela Polícia Federal, entre a mineradora e os engenheiros da empresa alemã, Tüv Süd, já se sabia que os sensores que deveriam medir o nível da água e a pressão na estrutura apresentavam problemas.

Algumas medidas estão sendo tomadas, e isto se fazia necessário: é notório que as normas atuais quanto a barragens não são as ideais. Por exemplo, as de Fundão, em Mariana, e também a de Brumadinho eram no modelo “a montante”, com alteamento na construção de degraus, modelo mais barato, e não “a jusante”, no qual o barramento cresce apenas sobre ele mesmo em direção à corrente dos resíduos.  E são mais de 700 barragens de minério catalogadas, das quais 420 submetidas à Política Nacional de Segurança de Barragens – PNSB. Destas, 223 são avaliadas como barragens de alto potencial de dano, como as duas supracitadas. Então, por medidas anunciadas pelo governo, elas terão que apresentar monitoramento em vídeo até junho próximo.

Que se agilizem medidas para impedir outras tragédias, e Itabira e Congonhas, todos temos visto a respeito, têm barragem de rejeitos em alto risco; também se espera que a mineradora Vale continue atenta para minorar tantos males na vida humana e no meio ambiente, cobrindo perdas e danos, indescritíveis, tudo causado pelo rompimento da barragem de sua responsabilidade. Metais pesados, como mercúrio, cádmio e chumbo já foram notados nas águas do Paraopeba, podendo chegar a Três Marias em breve. Contaminada a água, vem o risco de doenças diversas, dentre as quais as infecciosas e de pele, não nos esquecendo de problemas neurológicos causados notadamente pelo chumbo, bem como os casos emocionais, até mesmo com depressão, por todo o conjunto de infindos males. E a tanto transtorno, nenhum de nós pode ou deveria estar exposto, cumpre-nos, pois, mais do que nunca, observar, fiscalizar e denunciar.

Brasília, 8 fev. 2019.

Margarida Drumond de Assis é escritora e jornalista, autora de Um conflito no amor e Doce complicação; Além dos versosDe novo o amor, entre outros romances e poesias, crônicas e biografias, mais recente Eu já nasci padre!, sobre Pe. Abdala Jorge.

Contatos: (61) 98607-7680 [email protected]    www.margaridadrumond.com

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