IMPREVISTO PREVISÍVEL

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Uma vida parou sob um ônibus que levava muitas outras, vida afora. Imprevisto previsível, com diagnóstico preciso: Nada a fazer. Motivo: desatenção do pedestre.

De sua janela, Malu viu uma massa disforme, ensanguentada. Era o que restava de uma mente brilhante, prensada no asfalto. Mário voltava para casa, após um dia extenuante de trabalho. Seu cão de estimação atravessara a rua para recebê-lo, com pulos e lambidas de satisfação. Entretido com o animal, não observou o trânsito.

Malu o esperava com mesa posta, vinho no decantador e flores na jarra. Não podia ser! Fechou a janela e fechou-se para o mundo. Não, não era ele! Podia ser, mas podia não ser. A qualquer momento, entraria porta adentro, alegre, bonachão, tentando adivinhar, pelo olfato, os eflúvios vindos da cozinha. Estava um pouco atrasado, mas jantariam juntos, com certeza. Malu deambulou pelos cômodos, sem saber o que fazer. Sobre o criado mudo, pegou o livro que Mário estava lendo nos últimos dias, em francês. O título indiciava mau agouro. Tous les hommes sont mortels (Todos os homens são mortais), de Simone de Beauvoir. Brincadeira do destino? Leitura interrompida…ou seria a vida? Abriu aleatoriamente o livro na página 553. Havia uma frase sublinhada por ele, que inferia o niilismo do tempo e do espaço: “J’avançais pas après pas vers l’horizon qui reculait à chaque pas”. (Eu avançava passo a passo em direção ao horizonte, que recuava a cada passo). Até o acaso estava contra ela. Fechou o livro, assentou-se no sofá e fechou os olhos.

Horas depois, tudo silenciara do lado de fora. Não mais sirenes, nem atropelo de curiosos. Apenas o inseguro farfalhar das árvores, expostas ao vento. Pela fresta da janela, observou uma mancha escura no asfalto. O anoitecer silenciava o alarido da rua. A lerdeza do tempo aumentava sua ansiedade.

O telefone tocou. Recusou-se a atender. Letárgica, pôs-se a zanzar dentro dos limites domésticos. Tudo parecia mudo, estático, abandonado. Roupas dele, sem vida, no armário; barbeador sobre a pia do banheiro; colônia masculina… abriu o frasco. Inspirou fundo para sentir a presença desejada. Pegou na estante O livro do desassossego, de Fernando Pessoa, mas não passou da décima página. Espera doída, sofrida; coração em atropelo. Espraiou-se no sofá e começou a pescar, na memória, flashes de uma existência compartilhada. Se o mau pressentimento se concretizasse, nada faria mais sentido. Por que estudar uma vida inteira, especializar-se, trabalhar o dia todo, todos os dias, para acabar um estorvo, no meio da rua “atrapalhando o tráfego”, como diz a música de Chico Buarque?

Meio a reflexões, Malu passou parte da vida a limpo, desde o dia em que se haviam conhecido, na praia de Ipanema: o encantamento inicial, o namoro, o noivado, o casamento, a vida a dois, os passeios, a feliz cumplicidade nas minudências do cotidiano, a viagem por fazer, na semana seguinte… uma viagem programada e esperada há tanto tempo não podia se reduzir a nada. O Nada é mais implacável que o tempo – pensava ela -. Ele abocanha sorrateiramente o que bem lhe apraz, a qualquer momento, sem pedir licença.

Malu acabou adormecendo no sofá. Acordou assustada, às seis horas da manhã com o toque do telefone. Temendo má notícia, não atendeu. Arrancou os fios da tomada.  Foi ao quarto do casal, na esperança de que Mário tivesse entrado sorrateiramente durante a madrugada. Cama vazia. Tudo na mais perfeita ordem.

Quarenta minutos após, toque de campainha. Quem poderia chamar assim tão cedo? Não abriria a ninguém. Melhor seria prolongar a espera ou fugir da agonia. Como fugir? Para onde? Observou, na prateleira, garrafas enfileiradas, convidativas. Vislumbrou uma possibilidade prática de fuga sem deslocamento. Tomou whisky como se água fosse. Abocanhou com avidez todo o estoque de Valium e adormeceu placidamente.

 Jô Dumond

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