Jerry Adriani e a grande saudade que Ele deixa

0
477

                    

                                                Por *Margarida Drumond de Assis

“Doce, doce amor,/ onde tens andado, / diga, por favor,

Doce, doce amor, / doce, doce amor / Que eu vou te encontrar

Meu bem seja onde for (…).”

É, assim, cantarolando o início de uma das mais famosas músicas do já saudoso cantor Jerry Adriani, em 1971, que me atenho nesta homenagem. Ele que, junto de Erasmo Carlos, Wanderléa, Wanderlei Cardoso, Martinha, dentre outros, compunha o consagrado movimento da Jovem Guarda no Brasil, liderado pelo rei Roberto Carlos.  Ídolos que povoaram a mente e o coração de incontável número de jovens, nos anos 60 e 70, com suas músicas, todo o tempo tocadas nas  emissoras de rádio, compondo um cenário bonito do qual tive a alegria de participar.

Doce, doce amor… e essa melodia que foi muito tocada, desde que anunciaram a morte do cantor, na tarde de domingo/23, deste abril de 2017, vítima de câncer no pâncreas, ainda ecoa vibrante, e creio ser a saudade já batendo forte. Como os jovens de hoje que correm a assistir a shows de Ivete Sangalo, Luan Santana e tantos outros, também eu ficava atenta àquela época para ver de perto meus cantores prediletos, e  Jerry Adriani era um deles. E o vi bem de pertinho, numa ocasião, à beira do palco do “Elite Clube” em Acesita, na minha querida Timóteo. Merece Jerry Adriani todo o carinho de que foi alvo por ocasião de seu sepultamento nesta segunda-feira, no Cemitério São Francisco Xavier, na zona portuária do Rio. Muito feliz foi a decisão de sepultá-lo no Rio de Janeiro, cidade com a qual ele muito se identificou e onde encontrou mais espaço para dar vez ao sonho que o acompanhava desde criança: o de ser cantor.

Nasceu Jair Alves de Souza, na Maternidade D. Leonor de Barros, em São Paulo, e esse nome lhe deu o pai “Seu” José, porque muito admirava o grande jogador do Palmeiras, naquele tempo – Jair Rosa Pinto. E, apaixonado pelo futebol, imaginava o filho sendo um craque da bola; entretanto, a vida reservava outros planos para o pequeno, surpreendendo a mãe Angelina e seu esposo. Bem cedo, Jerry Adriani viu quanto era preciso lutar no dia a dia, e, durante um bom tempo, ficou com a avó D. Carolina, enquanto os pais saíam para trabalhar. Chamava-a Nona e com ela foi tomando gosto pela música, em especial pela música italiana, mas ele ainda contava cinco anos de idade quando ela faleceu, passando a ficar  durante o dia com uma vizinha, cujo filho, Carlinhos, estudava acordeon. De novo a música perto do menino, e ele cada vez mais encantado. Não tardou, começou Jair a desfiar valsas e boleros, arrancando aplausos nas festinhas escolares.

Desse tempo há um registro que me alegra partilhar com você, conforme registros no Álbum de número 3, da antiga revista Sétimo Céu, nos idos de 1970: em uma aula de história, a professora falava sobre Capitanias, então empregando a expressão “Donatários”. Pensou Jair: “Dona, tudo bem, mas ‘Tário’ ser nome de mulher?!” Entediou-se com o assunto e começou a fazer bolinhas de papel, jogando-as nos colegas. Logo, foi parar numa sala de aula onde só havia meninas, e, ali, inicialmente, sentiu-se meio sem chão e sendo foco de risos das garotas, mas não por muito tempo. Notou que a professora tratava de um assunto que muito lhe interessava, as sete notas musicais, com o que ficou empolgado. E não é que a professora perguntou se alguém queria cantar! Ele ergueu a mão e  foi postar-se junto do piano, ao lado da Profa. Vanda, que é como se chamava. Ela imaginou-o cantando alguma marchinha carnavalesca de sucesso, mas se surpreendeu ao vê-lo encher o peito e entoar “Violetas imperiais”, logo seguindo com músicas em italiano.  Quando veio a sua professora buscá-lo, mostrou-se irritada: o “castigo” transformara-se em prêmio.

E a vida de nosso protagonista se seguiu trazendo-lhe ocasiões nas quais ele via perspectivas de sobressair; porém, ainda muito haveria de  lutar. Nesse caminhar, estudou canto lírico com o tenor Edgar Arantes e D. Amélia, professora de Teoria; pensou em ser advogado, passando ao curso de Direito;  a muitos empecilhos foi superando, e o nosso jovem sempre pensando, também, em ajudar os pais em casa. Chegou a trabalhar no escritório da Fábrica de Tintas Coral, até que, sempre buscando um jeito de se firmar no meio musical, passou a outras iniciativas e quis um nome artístico. Admirador que era do ator Jerry Lewis, optou por “Jerry”, acrescentando “Adriani”.

Com o tempo, já no Rio de Janeiro, na CBS, Jerry Adriani se sentiu em casa e, consequentemente, logo presenteou-nos com seu primeiro elepê, “Italianíssimo”, vindo depois outros, a exemplo de “Credi a me” e  “Um grande amor”. A esse tempo, também participou de programas de rádio, vindo a seguir a Televisão, abrindo-lhe as portas. Agora, Jerry Adriani era sempre visto a cantar, ora “iê -iê-iê” romântico ora o animado som do grande ídolo internacional Elvis Presley, cantor que ele próprio muito admirava. Fato é que o nosso cantor passou a ser conhecido como “O galã”; “Presidente dos Brotinhos”; e  o “Rei do Rio”, mas feliz mesmo ele ficou quando em 1967, recebeu o título de “Cidadão Carioca”. Na sequência, veio o sucesso de bilheteria com o filme  “Esta gatinha é minha”, de forma que, em 1968, Jerry Adriani concretizou o que tanto queria em relação à sua família: entregou aos pais as chaves de um apartamento no Rio de Janeiro.

Assim, por tais fatos que são alguns dos muitos eventos que mostram a determinação, o talento, o carisma e a coragem de Jerry Adriani em sua vida, buscando realizar-se pessoal e profissionalmente como cantor, foram relevantes e honrosas as manifestações de carinho no momento do Adeus naquele campo santo, no final da tarde desta segunda-feira, em presença de familiares, amigos, músicos e fãs. Foi Jerry Adriani, sem dúvida, um grande nome da Música de nosso país; um ídolo da Jovem Guarda, notadamente no rock’n roll e em músicas italianas, com seus apaixonados shows, encantando-nos, a nós de sua geração e a outros jovens de gerações posteriores que tiveram a chance de o conhecer. A Jerry Adriani, com o nosso saudoso compositor e cantor Raul Seixas – que para ele fez o sucesso lá no início citado – dizemos ser, ele próprio, nosso “Doce, doce amor”,  de quem vamos nos lembrar sempre com muita saudade.

Brasília, 24 de abril de 2017

*Margarida Drumond de Assis é  professora, jornalista e autora de mais de uma dezena de livros editados, entre romances, poesias, biografias e outros gêneros literários. É membro da Academia Taguatinguense de Letras – ATL e da Academia de Letras e Artes do Brasil – ALMUB www.margaridadrumond.vai.la  Contato: [email protected]

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA