UMA GRANDE IDEIA

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(Homenagem de Jô Drumond à Professora Raimunda Rodrigues, falecida recentemente)

Poucas pessoas sabem que, graças ao desmaio de uma franzina garotinha durante a aula, em 1948, no Piauí, e graças à brilhante ideia de sua professora, institucionalizou-se a merenda escolar, benfeitoria que vigora até os dias de hoje em todo o território brasileiro.

Ideias grandiosas podem surgir a qualquer momento, em quaisquer circunstâncias, até mesmo nas mais adversas. Nada melhor do que uma boa ideia, como se diz popularmente, na “hora certa e no lugar certo”, ou seja, com condições de ser executada. É o caso da merenda escolar, simples sonho de uma educadora, que acabou alimentando várias gerações de crianças, e que foi responsável pelo salto qualitativo e quantitativo da educação neste país, sobretudo nas classes menos favorecidas. A educação ganhou em qualidade, visto que a criança bem alimentada apresenta melhores condições de rendimento na aprendizagem; ganhou também em quantidade, pelo fato de que famílias miseráveis passaram a enviar suas crianças à escola para lhes garantir pelo menos uma refeição diária.

Tudo começou em 1948, em Teresina, quando a jovem e idealista professora Raimunda Rodrigues começou a alfabetizar uma turma de 85 alunos. Além da classe numerosa, a sala de aula não dispunha de infraestrutura; apenas 12 carteiras duplas para instalar os pequerruchos. Como eram subnutridos e magricelas, os alunos do 1º ano “A” apertavam-se nas carteiras, 5 em cada uma. De vez em quando um deles caia, devido à exiguidade do espaço. Outros eram instalados no degrau do estrado do professor, e os demais distribuídos nas largas janelas. Além do desconforto, a professora tinha que ensinar sem elevar o tom de voz, para não perturbar a classe já alfabetizada do 1º ano “B”, de outra professora, com quem compartilhava o mesmo espaço, sem divisórias.

Certo dia uma garotinha subnutrida caiu desmaiada durante a aula. Após a reanimação da criança, Raimunda perguntou-lhe se havia se alimentado antes de ir à escola. A aluna lhe disse que havia tomado um copo de água com sal. A professora soube então que, como não havia nenhum alimento em casa, e como a mãe não queria que a filha saísse em jejum, deu-lhe tal paliativo. Naquele instante, um insight iluminou sua mente. O de alimentar as crianças na própria escola. A sugestão foi acatada pela direção escolar e pelos demais professores. Começaram, em mutirão, a angariar alimentos junto aos comerciantes locais, que nunca se recusavam a doar algo. As famílias dos alunos, entusiasmadas com a novidade, dispuseram-se a participar da execução do projeto. Mães se reuniam e se revezavam para o preparo da merenda escolar. A diretora, única pessoa do estabelecimento possuidora de um automóvel, transportava as cozinheiras e os alimentos angariados.

A ideia da merenda escolar poderia ter nascido e morrido no bairro Barrocão, de Teresina, mas quis o destino que a tal professora prestasse concurso para a Inspetoria Federal do Ensino. Nomeada pelo MEC em 1952, passou a atuar no Rio de Janeiro, capital federal na época. Em 1954, durante uma reunião dos Inspetores Federais do Ensino, no MEC, foram solicitadas sugestões para a melhoria do ensino básico. Sem pestanejar, Raimunda sugeriu a instituição da merenda escolar, fundamentando-se no fato de que a criança bem alimentada tem melhor rendimento. A ideia foi apoiada por unanimidade. Os próprios inspetores redigiram o projeto de lei para instituir a merenda escolar em todo o país. Enviaram-no ao ministro da educação, que o encaminhou ao presidente da República. Este acatou a proposta e, por sua vez, a enviou ao Congresso Nacional, onde foi votada e aprovada.  A ideia inicial era voltada para alunos carentes. No entanto, para evitar discriminação, ampliou-se para todo o corpo discente.

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