VERGONHA!

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O ano era 1974, o nome do presidente, “Emilio Garrastazu Médici”,  estava grafado na lousa como sempre pedia o ritual ideológico nos anos da ditadura.  E eu… Eu era apenas uma criança no auge dos meus 8 anos de idade que olhava pra aquele nome e tentava pronunciá-lo de voz baixa numa tentativa vã de memorização : Emilio garrafa azul Médici… Emilio garrafa azul Médici… Risos…

AILTON NEVES COLUNISTA

Mas de repente, meus pensamentos são interrompidos com o sino que anunciava a hora do recreio e com a gritaria que sempre acontecia quase simultaneamente…

Meu amigo de infância, Dil, que nos dias de hoje seria diagnosticado como portador de TDAH – Transtorno de Déficit de atenção e Hiperatividade,  passou por mim correndo e gritou:

–  Vamos! Vamos rápido. Pega a sua mochila e seu lanche e  vamos assentar ali. Corre!

– Mas pra que? Eu não trouxe lanche. Pode deixar minha mochila dentro da sala de aula.

– Não, eu já peguei a minha mochila e já peguei a sua mochila  também. Vamos. Vamos assentar ali.

– Não, Dil. Não assente em cima da minha mochila não. Não. Não…

Apelos em vão…  Em fração de segundos que durou quase uma eternidade, minha face enrubesceu, senti  um calor repentino e uma sensação ruim me invadiu  enquanto eu abria minha  mochila e via as duas bananas que eu levava como lanche completamente amassadas e misturadas às folhas do meu único caderno …

Creio que esta é  uma das  lembranças  mais remotas que tenho sobre a experiência de sentir vergonha.

Passado alguns anos, quando estava lendo  “Olhai os lírios do campo” de Erico Verissimo” , me identifiquei muito com  a passagem  onde o  personagem Eugenio descobre  no meio do recreio que estava com a calça furada e é vítima do que hoje  chamamos de bullyng. Ou seja, a turma inteira sai correndo atrás dele e gritando: “Calça furada! Calça furada! Calça furada-da”

Mas lembrando deste meu episódio, não sei por que  motivo, naquela tenra idade,  habitava no meu imaginário a ideia de que levar 2 bananas como lanche para a escola, não era indicador de ser “fitness” ou ser adepto de uma alimentação saudável como é hoje. Mas sim, era revelador que,  por fazer parte de uma família  numerosa,   não tínhamos recursos financeiros suficientes para comprar e levar para a escola uma merendeira “top of the line” como mostrado na figura abaixo. Risos…

Mas deixando as reminiscências do passado, apesar deste evento narrado ter alguns componentes associados á  vergonha , tais como  a ocultação do  fato, o temor por sua revelação, a presença de testemunha e o eu envergonhado,   ele se torna pequeno e inapropriado diante da abrangência do significado psicológico da vergonha.

“Vergonha é um estado psicológico de consciência de desonra ou condenação, sobre um conjunto de conhecimentos que afeta a dignidade humana de uma pessoa ou grupo social, onde ultraja os valores morais, éticos e regras de conduta pré-estabelecidas.”

Não tenho intenção de esgotar este conceito  mas sugerir algumas reflexões:  Por que sentimos vergonha? Por que  somos arrebatados por este sentimento  mesmo em  situações em que racionalmente ele é completamente inapropriado?  Por que o olhar do outro  ganha tanta importância que acaba distorcendo a imagem que temos de nós mesmos?

Parece que Freud não se deteve em explorar e descrever tanto este “afeto de desprazer” chamado vergonha,  da mesma forma que fez com a culpa, o narcisismo e outros afetos. Freud acabou por relacioná-lo aos nossos mecanismos de defesa. Ou seja,  ocultamos sempre algo de nós mesmos e dos outros afim de nos poupar.

A vergonha, em algum ponto da nossa vida será inevitável e sempre funcionará como um elemento regulação moral.

O mais doloroso desta situação é quando o inapropriado é o próprio de sentimento de vergonha.

Alguns estudos sociais realizados na década de 80, no grande Abc em SP, com desempregados oriundos das famosas greves daquele período, demonstraram que alguns desempregados sentiam vergonha de dizer que estavam desempregados.  Casos de depressão oriundos desta situação são bastante comuns ainda nos dias de hoje…

Mas porque alguém deveria sentir vergonha de fazer parte de uma estatística que hoje envolve quase 13 milhões de pessoas, neste caso, denominado de desempregados?  Como a próprio frase expressa,  o peso do olhar do outro distorce a imagem do  sujeito da condição de indivíduo trabalhador e produtivo para a condição de desempregado. E por fim associa a imagem do desempregado a alguém que falhou, que cometeu algum ato errado e se tornou indigno do emprego.

Mas como é possível o olhar do outro ter este poder? De gerar um sentimento de tamanha inadequação, gerando dor  e afetando a nossa autoestima?

Enfim, vou te dar uma boa notícia: O olhar do outro não terá nunca este poder se  encontrar dentro de você  uma autoestima  equilibrada.

Pois sendo o conceito de autoestima a “qualidade de quem se valoriza,  se contenta com seu modo de ser e demonstra, consequentemente, confiança em seus atos e julgamentos”, é praticamente impossível sentir vergonha em situações em que a própria vergonha é inapropriada.

A vergonha inapropriada de  determinadas situações ou condições,   normalmente  é resultado da falha no equilíbrio da regulação da autoestima.

Nos anos iniciais da criança, praticamente não existe este sentimento de vergonha, no máximo certo embaraço que tem duração momentânea.  Já o adulto tem a oportunidade de regular e equilibrar  sua autoestima  considerando, de um lado  a interação com seus próximos e do outro a sua própria avaliação.

Desta forma é possível ser protagonista, considerando o olhar e apreciação que recebe dos outros em um processo e vivencia de relações afetivas  saudáveis,  além de acumular e avaliar suas próprias experiências e realizações com a modéstia necessária e excluindo os sentimentos autodepreciativos.

Aos meus amigos, aqueles que são próximos, sempre os aconselho   a fugir das relações tóxicas, sejam afetivas, amorosas e até parentais. Pois estes relacionamentos são fontes de esgotamento psíquico  com desequilíbrio da autoestima,  gerando um estado em que a própria pessoa começa a sentir vergonha de si mesma.

Isto passa a ser uma tortura psicológica, pois diante da identificação, ainda que inapropriada,  daquilo que condeno em mim e nos outros,  cria-se  um controle psicológico em que a pessoa  se autocontrola, se fiscalizam e por fim se pune.

Esta vergonha de si mesmo, quando o eu é a própria testemunha é algo bem similar ao que  Michel Foucault chamou de Panóptico.  Simplificando, o panóptico seria um conjunto de mecanismos e dispositivos de vigilância  capazes de interiorizar a culpa e causar remorsos pelos próprios  atos.

Mas voltando  ao Dil, este meu amigo do inicio do texto, nós  tivemos a oportunidade de crescer,  viver e desfrutar  da companhia um do outro por longos anos, compartilhando segredos e conquistas e diminuindo as oportunidade de sentir  ter vergonha…

Chegamos até aprontar algumas, como roubar mangas no quintal dos  vizinhos quando criança, brigar na rua quando adolescente. Mas quando entramos na idade adulta tomamos caminhos diferentes…

Por fim  chorei sozinho, assentado em um banco de praça lá na Vila Maria em SP quando recebi o telefonema  com a noticia de que este meu amigo, Dil, tinha sido vitimado pela  de violência aos 28 anos de idade… Violência esta,  sim, que me causa VERGONHA!!!

Terminando, resta apenas a SAUDADE!!!

Assunto este que, quem sabe,  será tema em um próximo artigo.

Uma boa semana!!

Ailton Neves

 

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